o-globo-26112018Planos de saúde investem em tecnologia e estrutura própria para superar crise

Fonte: O Globo - 26/11/2018

Por Leo Branco

Após três anos perdendo clientes por causa da crise econômica — que eliminou empregos e, consequentemente, a disposição das empresas em oferecer benefícios —, o setor de planos de saúde investe em tecnologia e infraestrutura própria para reduzir custos na operação e reequilibrar as contas.

Para aumentar o controle sobre as despesas, grandes operadoras estão investindo mais em estruturas como hospitais, enfermarias e a contratação de médicos para monitorar pacientes com foco na prevenção. A expansão da rede própria movimentou quase R$ 15 bilhões em 2017 — 80% mais que há cinco anos, no período anterior à crise.

No fim de 2017, estavam ativos 770 planos de saúde no país, de acordo com a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge). É uma queda de 7% desde o início da crise, em 2014, e de 40% desde o auge do setor, na virada dos anos 2000. Agora, a perspectiva é de que o setor pare de cair e feche dezembro com 47,5 milhões de segurados. É uma alta de 0,6 ponto percentual em relação ao fim de 2017, segundo projeções da Abramge.

A expansão ainda é tímida em relação ao padrão pré-crise, época em que a carteira de clientes atendidos pelos planos de saúde costumava aumentar entre dois e três pontos percentuais por ano. Mas para um mercado que vinha encolhendo nos últimos anos, trata-se, sem dúvida, de um alento.

Ainda assim, o setor está longe de retomar o patamar pré-crise. A taxa de desemprego, hoje em 12%, é um entrave para a retomada num setor em que a grande maioria dos clientes é de empresas que oferecem o benefício aos seus empregados.

Considerando projeções de desemprego, a previsão é chegar perto de 49 milhões de beneficiados em 2020 — afirma Marcos Novais, economista-chefe da Abramge.

Além de uma retomada lenta, os planos de saúde têm hoje um mercado mais concentrado em grandes empresas focadas em ganhar eficiência num mercado mais difícil. Para fazer isso, a tendência de verticalização com estruturas próprias tem sido puxada pelas grandes empresas, como a Amil, líder do mercado com seis milhões de beneficiários.

Desde 2016, a operadora mantém 34 consultórios chamados Espaço Saúde que misturam a estrutura de um posto de saúde, com médicos e enfermeiros, com salas para cirurgias de baixa complexidade. Além disso, têm equipes de medicina da família para identificar maus hábitos entre os beneficiados, como tabagismo e sedentarismo, e oferecer programas de prevenção. Hoje, 220 mil beneficiários frequentam regularmente os consultórios, que acabam custando menos para a operadora com a redução de procedimentos.

— Entre os usuários dos consultórios, o volume de internações caiu 30%. As consultas a especialistas, 89% — observa Sergio Ricardo Santos, presidente da Amil.

A tecnologia tem sido uma aliada das grandes operadoras para reduzir custos e sinistralidade, ou seja, o saldo entre a receita obtida com as mensalidades dos planos de saúde menos os gastos com o atendimento aos beneficiários.

No caso da Seguros Unimed, operadora voltada aos clientes de alta renda do conglomerado de cooperativas médicas fundado em 1975, a criação de uma unidade de inovação chamada Stormia permitiu criar sistemas que usam Big Data para rastrear os usuários com maior demanda no sistema e mapear medidas preventivas para baixar os custos entre os beneficiados. Com isso, desde 2015, a Unimed Seguros conseguiu reduzir a taxa de sinistralidade de 89% para 80% em setembro deste ano.

A tecnologia tem permitido ainda conhecer melhor os hábitos de profissionais da saúde e de clientes — e, com isso, reduzir desperdícios e oferecer planos mais baratos. A Hapvida, terceira maior operadora em número de beneficiados no país e líder nas regiões Norte e Nordeste, submete seus pacientes à coleta de biometria antes de qualquer tipo de procedimento médico na rede, quase 100% própria, desde a década de 1990.

Nos últimos anos, o grande banco de dados tem alimentado um sistema de inteligência artificial que permitiu à central da Hapvida, em Fortaleza, a acompanhar detalhadamente os processos adotados por médicos e enfermeiros contratados. Com isso, a empresa criou novos manuais de procedimentos médicos e um sistema de bônus por eficiência. As medidas ajudaram a Hapvida a atravessar a crise:

— Desde o terceiro trimestre de 2017, o número de beneficiados por planos da Hapvida cresceu 7% ao ano e a receita, 20% — observa Bruno Cals, diretor financeiro da Hapvida, que fechou outubro com 3,8 milhões de beneficiados e R$ 3,3 bilhões de faturamento.

A crise entre os planos de saúde fez surgir novos modelos de negócio entre as operadoras que mais crescem neste setor. É o caso da São Francisco, empresa de Ribeirão Preto fundada há sete décadas em Ribeirão Preto (SP). A empresa, que recebeu um investimento do fundo Gávea em 2016, viu o faturamento expandir 63% em dois anos. A receita em 2018 deve fechar em R$ 1,8 bilhão.

Receita extra

Em boa medida o desempenho se deve a fontes adicionais de receita obtidas com a estrutura tradicional. Recentemente, equipes médicas de assistência emergencial, que tradicionalmente são usadas para socorrer os beneficiados do plano, hoje também atendem casos de acidentes em rodovias concedidas à iniciativa privada, que pagam a São Francisco pelo serviço. Uma das concessionárias que contrataram a operadora é a Arteris, que administra rodovias em São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

— Os novos negócios hoje representam 15% das receitas — diz Lício Cintra, presidente da São Francisco.

Especialistas do setor avaliam que a concentração e o foco em novas fontes de receitas serão as tendências do mercado de saúde suplementar enquanto a economia não engrenar, com reflexo no número de segurados.

— As operadoras vão ficar num esquema de “rouba monte”, tirando clientes umas das outras. Quem estiver mais bem estruturado agora vai ficar ainda mais forte — sustenta o médico Carlos Suslik, que já chefiou o Instituto Central do Hospital das Clínicas e hoje presta consultoria a planos de saúde de várias regiões do país.

 

 

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